Supply Chain

Curva ABC e XYZ: como combinar valor e variação da demanda na gestão de estoques

Por Anderson ZanelaSet 2026 7 min
Curva ABC e XYZ: como combinar valor e variação da demanda na gestão de estoques
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A curva ABC ordena os itens pelo valor que movimentam e a classificação XYZ os ordena pela estabilidade da demanda. Usadas juntas, formam uma matriz de nove classes que responde à pergunta que a ABC sozinha não responde: dois itens classe A podem pedir políticas de reposição opostas. Um item caro com consumo estável aguenta cobertura curta e reposição automática. Um item igualmente caro com demanda errática precisa de revisão manual, compra mais próxima do pedido do cliente ou um acordo de prazo com o fornecedor. Tratar os dois com a mesma regra gera, ao mesmo tempo, capital parado em um e ruptura no outro.

Definição

Curva ABC e XYZ é a combinação de duas segmentações de estoque. A ABC divide os itens pelo valor de consumo acumulado (A concentra a maior parte do dinheiro, C é a cauda longa de itens baratos). A XYZ divide pelo coeficiente de variação da demanda (X é estável, Y oscila, Z é irregular ou esporádica). Cada item recebe duas letras, como AX ou CZ.

Como calcular a curva ABC?

  1. Defina o período: os últimos 12 meses costumam equilibrar volume de histórico e atualidade. Itens lançados há menos tempo ficam numa categoria à parte até acumular histórico.
  2. Calcule o valor de consumo de cada item: quantidade consumida ou vendida no período multiplicada pelo custo unitário. Para estoque, o custo é a base mais comum; faturamento ou margem respondem a outras perguntas.
  3. Ordene do maior para o menor valor e calcule o percentual acumulado de cada item sobre o total.
  4. Aplique os cortes: uma convenção frequente é A até 80% do valor acumulado, B de 80% a 95% e C acima de 95%. Os cortes são uma escolha da empresa, não uma regra fixa, e devem ser registrados junto com o painel.

O cálculo é simples e quase todo ERP já tem um relatório pronto de curva ABC. O problema começa quando ele é o único critério. A ABC sabe quanto dinheiro passa por um item, mas não sabe se o consumo desse item é previsível, e é a previsibilidade que define quanto estoque de proteção ele precisa.

Como calcular a classificação XYZ?

A XYZ usa o coeficiente de variação (CV) da demanda: o desvio-padrão do consumo por período dividido pela média do mesmo período. Um CV de 0,1 indica que o consumo mensal costuma ficar a 10% da média; um CV acima de 1 indica que a variação é maior que a própria média. Em demanda mensal, cortes usados com frequência são X até 0,5, Y de 0,5 a 1,0 e Z acima de 1,0, mas eles também precisam ser calibrados com a operação.

Para mostrar a diferença, pegue dois itens inventados para este exemplo, ambos com consumo médio parecido. O primeiro vendeu 100, 110, 95, 105, 100, 90, 105, 100, 95, 110, 100 e 90 unidades nos últimos 12 meses: média de 100, desvio de 6,5 e CV de 0,06, classe X. O segundo vendeu 0, 0, 300, 20, 0, 150, 0, 0, 400, 10, 0 e 120: média de 83, desvio de 130 e CV de 1,56, classe Z. Olhando só o total do ano, os dois parecem itens do mesmo porte. Na hora de repor, não têm nada em comum.

No Power BI, a medida abaixo calcula o CV mensal de cada item dentro do período filtrado. O + 0 faz os meses sem venda entrarem como zero; sem ele, esses meses ficam em branco, são ignorados na média e no desvio, e o item esporádico aparece como estável.

DAX
CV Demanda Mensal =
VAR Meses =
    ADDCOLUMNS (
        VALUES ( dCalendario[AnoMes] ),
        "@Qtd", [Quantidade Vendida] + 0
    )
VAR Media =
    AVERAGEX ( Meses, [@Qtd] )
VAR Desvio =
    STDEVX.P ( Meses, [@Qtd] )
RETURN
    DIVIDE ( Desvio, Media )

A medida pressupõe uma tabela de calendário relacionada às vendas, com uma coluna de ano e mês, e um filtro de 12 meses completos. A classificação final em A, B, C e X, Y, Z costuma ficar melhor na camada de dados ou numa tabela calculada, para não ser refeita a cada clique no relatório.

Como ler a matriz de nove classes?

  • AX e AY: muito valor e demanda previsível ou moderadamente variável. São os melhores candidatos a reposição automática com cobertura curta, revisão frequente e acordos de entrega programada com o fornecedor. Cada dia de estoque a mais aqui custa caro.
  • AZ: muito valor e demanda irregular. Estoque de segurança calculado por fórmula tende a ficar enorme ou a falhar. Vale revisão item a item, compra vinculada a pedido ou a projeto quando possível, conversa com o comercial sobre a carteira e prazo de reposição negociado.
  • BX, BY e BZ: faixa intermediária. As políticas seguem a lógica das linhas vizinhas, com parâmetros revisados com menos frequência que os itens A.
  • CX e CY: pouco valor e consumo previsível. Reposição automática com lotes maiores e pedidos menos frequentes; o custo de faltar costuma ser maior que o custo de guardar um pouco mais.
  • CZ: pouco valor e demanda esporádica. É onde se acumulam itens obsoletos e cadastros duplicados. Candidatos a compra sob demanda, estoque mínimo ou revisão do próprio mix.

Que diferença isso faz no capital em estoque?

Os dados abaixo foram montados só para demonstrar a conta e não descrevem nenhuma empresa. Uma distribuidora tem 2.000 itens ativos e R$ 24 milhões de consumo anual a custo. Pela curva ABC, 300 itens (15%) respondem por 80% desse valor. Cruzando com a XYZ, esses 300 se dividem em 170 AX, 90 AY e 40 AZ.

Hoje a política de reposição é a mesma para toda a classe A: 20 dias de cobertura. Para os 170 itens AX, que somam cerca de R$ 12 milhões de consumo por ano, 8 dias bastariam, porque o consumo quase não varia. Os 12 dias de sobra representam perto de R$ 400 mil em estoque (R$ 12 milhões ÷ 365 × 12). Enquanto isso, os 40 itens AZ continuam rompendo com os mesmos 20 dias, porque a variação deles não cabe em nenhuma cobertura fixa. Mudar a política por classe da matriz libera caixa nos AX e expõe os AZ como um problema de planejamento com o comercial, não de parâmetro.

Quais são os limites da matriz ABC/XYZ?

  • Criticidade fica de fora: uma peça de manutenção barata, classe CZ, pode parar uma linha de produção. Itens críticos precisam de uma marcação própria que se sobreponha à matriz.
  • O CV depende do período: o mesmo item tem CV maior medido por semana do que por mês. Escolha a granularidade do ciclo de reposição e mantenha a mesma para todos os itens.
  • Histórico contaminado distorce a classe: ruptura derruba a venda registrada, e uma venda pontual grande infla a média. Meses com falta de estoque ou pedidos excepcionais precisam ser tratados antes do cálculo.
  • Sazonalidade parece variação: um item que vende muito só no fim do ano pode cair em Z sendo perfeitamente previsível. Nesse caso, a comparação certa é com o mesmo período do ano anterior.
  • A classificação envelhece: recalcular a cada trimestre ou semestre evita políticas presas a um mix que já mudou. Recalcular toda semana faz o item trocar de classe o tempo todo e ninguém confia no resultado.

A matriz também dá ordem às outras análises de estoque. Na lista de estoque parado e capital imobilizado, um item A parado pesa mais do que um C parado pelo mesmo tempo. Nos alertas de ruptura de estoque, a classe define quem aparece primeiro na fila do comprador. E o estoque de segurança, quando calculado por fórmula, só funciona bem nos itens X e Y; para os Z, a conversa é outra.

Quem ainda aplica a mesma regra de reposição para todos os itens da curva A, ou nunca cruzou valor com variação da demanda, costuma encontrar nesse cruzamento o caixa mais fácil de liberar do estoque. O diagnóstico de estoque gratuito da Insight Pro, dentro do serviço de Supply Chain Analytics, parte exatamente daí: calculamos a curva ABC e a classificação XYZ com o histórico do seu ERP, mostramos quantos itens e quanto capital estão em cada classe da matriz e apontamos onde a política de reposição atual sobra ou falta, antes de qualquer contratação.