Como usar ChatGPT ou Claude com dados da empresa sem vazar informação (LGPD)

Dá para usar ChatGPT ou Claude com dados da empresa sem vazar informação, desde que três decisões venham antes do primeiro prompt: qual plano a empresa usa, que tipo de dado pode entrar na conversa e quem controla o acesso e o registro de uso. O plano é o ponto mais sensível. Nas contas pessoais, gratuitas ou pagas individualmente, é o próprio usuário quem decide se as conversas ajudam a treinar os modelos, e a empresa não enxerga o que foi enviado. Nos planos corporativos, com contrato, os dados não são usados para treino por padrão e existem controles de administrador. Mesmo no plano certo, dado pessoal de cliente, fornecedor ou funcionário continua sujeito à LGPD, e isso exige uma regra clara do que pode ou não ir para a IA.
Dado pessoal, pela LGPD (Lei 13.709/2018), é qualquer informação ligada a uma pessoa natural identificada ou identificável: nome, CPF, e-mail, telefone, matrícula de funcionário. Dado pessoal sensível inclui saúde, origem racial ou étnica, convicção religiosa, opinião política e biometria, entre outros. O CNPJ de um fornecedor não é dado pessoal, mas o nome e o celular do vendedor que atende a conta são.
Qual é a diferença entre plano gratuito e plano corporativo?
A diferença está no contrato e em quem decide o destino dos dados. O resumo abaixo segue os termos publicados pela OpenAI e pela Anthropic, conferidos em setembro de 2026:
- ChatGPT Free, Go, Plus e Pro: a opção Improve the model for everyone (melhorar o modelo para todos), em Configurações > Controles de dados, define se as conversas novas podem treinar os modelos da OpenAI. Desligar não apaga o histórico. O chat temporário não entra no treino e pode ficar retido por até 30 dias por segurança, segundo a central de ajuda da OpenAI sobre controles de dados.
- ChatGPT Business, Enterprise e API: a OpenAI informa que não treina com dados empresariais por padrão, oferece acordo de processamento de dados (DPA) e, no Business, remove as conversas excluídas em até 30 dias, salvo exigência legal, conforme a página de privacidade empresarial da OpenAI, atualizada em janeiro de 2026.
- Claude Free, Pro e Max: desde a mudança nos termos de consumo da Anthropic, em 2025, cada usuário escolhe se as conversas ajudam a treinar o Claude. Quem permite tem os dados retidos por até cinco anos; quem recusa fica com a retenção de 30 dias, conforme o anúncio da Anthropic sobre os termos de consumo.
- Claude for Work (planos Team e Enterprise) e API: a Anthropic informa que não usa as entradas e saídas dos produtos comerciais para treinar os modelos por padrão.
Há uma exceção que vale para os dois provedores: o botão de avaliação da resposta, o polegar para cima ou para baixo. Enviar esse feedback pode liberar a conversa inteira para treino, mesmo em conta que desligou a opção ou em plano comercial. No Claude, o administrador de um plano Team ou Enterprise pode desativar o botão para toda a organização.
Treino também não é o único risco. Mesmo sem treino, o provedor guarda o conteúdo por um período e pode acessá-lo para investigar abuso, e o processamento costuma acontecer fora do Brasil. Para a LGPD, isso é transferência internacional de dados pessoais, hoje regulada pela Resolução CD/ANPD nº 19/2024. Qual base legal e qual mecanismo de transferência se aplicam ao seu caso é uma análise para o jurídico ou para o encarregado de dados (DPO), não para a TI nem para este artigo.
O que pode e o que não pode ir para a IA?
Uma forma prática de decidir é classificar a informação em três níveis antes de colar qualquer coisa no chat:
- Liberado em qualquer ferramenta aprovada: conteúdo público ou sem dado pessoal e sem segredo comercial, como a dúvida sobre uma fórmula de Excel ou DAX, a explicação de um conceito ou a estrutura de um e-mail sem nomes.
- Liberado só no plano corporativo, com regra: dados internos sem identificação de pessoas, como volume de compras por categoria, lista de itens com saldo e giro, cotações com a razão social do fornecedor e atas de reunião sem dados pessoais.
- Proibido, ou só com anonimização e aval do DPO: CPF, dados de saúde de funcionários, folha de pagamento, dados bancários, base de clientes com nome e contato, contratos com cláusula de confidencialidade, senhas e chaves de acesso.
O critério não se resume à LGPD. Contratos com clientes e fornecedores costumam trazer cláusula de confidencialidade que proíbe repassar a informação a terceiros, e um provedor de IA é um terceiro. Preço negociado, margem e estratégia comercial não são dados pessoais, mas o vazamento desses números custa caro do mesmo jeito.
Quais camadas de controle a empresa precisa ter?
- Plano empresarial com contrato: contas gerenciadas pela empresa, login corporativo (SSO), acordo de processamento de dados assinado e a possibilidade de retirar o acesso no dia em que alguém sai do time.
- Anonimização antes do envio: trocar nomes por códigos, remover CPF, e-mail e telefone e agregar o que der (total por categoria em vez de linha por cliente). Em rotinas recorrentes, essa limpeza pode ser automática, num script ou na camada de dados, em vez de depender de quem cola o texto.
- Acesso por permissão: quando a IA se conecta a ERP, SharePoint ou Google Drive, ela deve enxergar só o que o usuário já enxerga. Um conector montado com uma conta de serviço que acessa o ERP inteiro abre para qualquer pessoa o que antes era restrito.
- Registro de uso: quem usou, qual ferramenta e para qual finalidade. Parte disso vem da própria plataforma nos planos corporativos, como o log de auditoria acessível pela Compliance API do ChatGPT Enterprise.
- Regra escrita e treinamento: a classificação dos três níveis, com exemplos da própria empresa, explicada ao time antes da liberação.
O cuidado aumenta quando a IA deixa de só responder e passa a agir. Um agente que lê cotações e e-mails de fornecedores, como os descritos em agentes de IA no setor de compras, processa dados de terceiros o tempo todo. O que ele pode ler, e onde esses dados ficam registrados, precisa ser definido no desenho do fluxo, não depois que ele já está rodando.
Como fica a diferença em uma tarefa real?
Pense em um comprador que quer ajuda da IA para comparar três propostas recebidas em PDF. O cenário é hipotético e foi criado só para ilustrar o raciocínio. No caminho arriscado, ele cola as propostas inteiras, com nome, celular e e-mail dos vendedores e as condições negociadas, numa conta pessoal gratuita com a opção de treino ligada. No caminho controlado, usa a conta corporativa, apaga os contatos dos vendedores, troca o nome das empresas por Fornecedor A, B e C e pede a comparação de preço, prazo de entrega e condição de pagamento. A análise que volta é praticamente a mesma. Muda o que saiu da empresa.
O que conferir antes de liberar a IA para o time?
- Escolha as ferramentas aprovadas e oriente o time a não usar contas pessoais para trabalho.
- Leia os termos do plano contratado: treino, retenção, DPA, local de processamento e quem pode acessar as conversas. Anote a data da consulta, porque esses termos mudam.
- Defina os três níveis de dado com exemplos tirados da rotina da própria empresa.
- Leve o desenho ao jurídico ou ao DPO para validar a base legal, a transferência internacional e as cláusulas de confidencialidade dos contratos em vigor.
- Configure a administração: SSO, período de retenção, conectores habilitados e bloqueio do botão de feedback quando a plataforma permitir.
- Treine o time com casos reais, não só com a política em PDF.
- Revise a cada seis meses, ou antes se o provedor mudar os termos.
Este artigo resume os termos publicados pela OpenAI e pela Anthropic em setembro de 2026 e não substitui orientação jurídica.
Se o time já usa IA no dia a dia e ninguém sabe dizer quais dados passaram por ela, o primeiro passo é mapear esse uso antes de proibir ou liberar de vez. É o trabalho do diagnóstico gratuito da Insight Pro dentro do serviço de Inteligência Artificial: levantamos quais processos já usam IA, que tipo de dado circula em cada um e onde faltam controles, e devolvemos um plano de uso seguro por processo, com o que pode seguir como está, o que precisa de anonimização ou conector com permissão e o que deve sair da IA, antes de qualquer contratação.
