Pular para o conteúdo
Supply Chain

Orçamento de compras 2027: como projetar o gasto com dados

Por Anderson ZanelaNov 2026 7 min
Orçamento de compras 2027: como projetar o gasto com dados
Compartilhe

Para montar o orçamento de compras de 2027 com dados, comece pelo gasto realizado nos últimos 12 a 24 meses, limpo e classificado por categoria, e projete cada categoria separando duas perguntas: quanto a empresa vai comprar (volume) e quanto vai pagar por unidade (preço). O volume vem do plano de vendas e de produção, e não do histórico puro. O preço vem do índice que de fato reajusta cada categoria, seja IPCA, IGP-M, câmbio ou cotação de commodity, e dos contratos que já têm data de reajuste. Sobre essa base entram as metas de economia, o efeito da CBS no custo líquido e a distribuição mês a mês. O resultado é um número que se explica linha a linha e pode ser acompanhado durante o ano, e não um percentual aplicado sobre o total do ano anterior.

Definição

Orçamento de compras por volume e preço é o método que projeta o gasto de cada categoria como o produto de duas premissas independentes: a quantidade prevista e o preço unitário previsto. Como cada premissa tem uma fonte e um responsável, no meio do ano fica possível saber se o desvio veio de comprar mais ou de pagar mais caro.

Por que repetir o gasto de 2026 mais a inflação não funciona?

Porque esse atalho junta em um só número coisas que se movem de forma diferente. Uma categoria pode crescer 15% porque a fábrica vai produzir mais, e outra pode cair porque um contrato foi encerrado. O índice geral de inflação raramente coincide com o reajuste do aço, da resina, do frete ou do contrato de manutenção. E o histórico de 2026 carrega compras que não vão se repetir, como uma parada de manutenção grande ou uma compra antecipada antes de um aumento. Quando tudo isso vira um percentual único, o orçamento fecha no papel, estoura na categoria errada e ninguém consegue dizer por quê.

Que dados reunir antes de projetar?

  • Gasto realizado por categoria e fornecedor: pedidos e notas de entrada dos últimos 12 a 24 meses, com a classificação de categorias revisada. É a mesma base de um spend analysis no Power BI, e quem já tem esse painel sai na frente.
  • Compras não recorrentes marcadas: investimentos, emergências e compras antecipadas, para ficarem fora da base ou entrarem como linha própria.
  • Plano de vendas e de produção de 2027: volumes por família de produto, de preferência os mesmos levados à reunião de S&OP, para que compras e comercial trabalhem com o mesmo número.
  • Contratos vigentes: valor, índice de reajuste, mês de aniversário e vencimento. Um contrato que reajusta em março pesa dez meses no ano; um que reajusta em novembro, só dois.
  • Índices de referência por categoria: IPCA e IGP-M para serviços e contratos, câmbio para itens importados ou cotados em dólar, cotações de commodities para matéria-prima. Para as variáveis macroeconômicas, o Boletim Focus do Banco Central publica toda semana a mediana das expectativas do mercado.
  • Regime tributário dos fornecedores: necessário para estimar o custo líquido de crédito com a entrada da CBS em 2027.

Como projetar o orçamento de compras passo a passo?

  1. Limpar a base: retire o que não se repete, corrija categorias genéricas como "materiais diversos" e trabalhe com o valor sem tributos recuperáveis, que é o custo que de fato pesa no resultado.
  2. Priorizar pela curva ABC: as poucas categorias que somam 70% a 80% do gasto merecem projeção detalhada por item ou família. O restante pode ser projetado por índice, sem perda relevante de precisão. O critério de corte está em curva ABC e XYZ na gestão de estoques.
  3. Projetar o volume: para materiais diretos, multiplique o consumo por unidade produzida pelo plano de produção. Para indiretos, use os direcionadores da operação, como número de funcionários, área ocupada ou tamanho da frota.
  4. Projetar o preço: aplique a cada categoria o índice que a reajusta de verdade, no mês em que o reajuste acontece, e respeite o que já está contratado. Item com preço travado até junho só sobe no segundo semestre.
  5. Incluir o efeito tributário: projete o custo líquido de crédito com a troca de PIS e Cofins pela CBS, com a alíquota tratada como premissa explícita (mais sobre isso abaixo).
  6. Separar a meta de economia: a meta de saving (economia negociada) entra como linha própria, por categoria e com a iniciativa que vai gerá-la, e não embutida no preço. Assim, no fim do ano, dá para provar o que foi negociado, como explicamos em saving e cost avoidance.
  7. Distribuir por mês e montar cenários: reparta o valor anual pela sazonalidade do consumo e pelos meses de reajuste, e prepare ao menos um cenário alternativo para as categorias mais expostas a câmbio e commodities.

Como fica a conta em um exemplo?

Para tornar o método concreto, pense em uma indústria fictícia com R$ 38 milhões de gasto em 2026, concentrado em três grupos. Os percentuais foram escolhidos para facilitar a conta e não são projeção de mercado nem dado de algum cliente:

  • Matéria-prima (aço): R$ 24 milhões em 2026. O plano de produção prevê 8% a mais de volume, e o índice de preço da categoria, alta de 4%. Projeção: 24 × 1,08 × 1,04 = R$ 26,96 milhões.
  • Embalagens: R$ 6 milhões. O mesmo crescimento de 8% no volume, com reajuste de 6% previsto em contrato. Projeção: R$ 6,87 milhões.
  • Serviços indiretos (manutenção, limpeza, TI): R$ 8 milhões. Volume estável e reajuste de 5% pelos contratos. Projeção: R$ 8,40 milhões.

A soma dá R$ 42,23 milhões, 11,1% acima de 2026. Com uma meta de 3% de economia em matéria-prima, ligada à renegociação de dois contratos, saem R$ 0,81 milhão, e o orçamento fecha em R$ 41,42 milhões. Pelo atalho de repetir o ano anterior mais 4,5% de inflação, o número seria R$ 39,71 milhões. A diferença de R$ 1,7 milhão não desaparece: ela surge como estouro a partir do segundo trimestre, quase toda em matéria-prima, porque o atalho ignorou o aumento de produção. No método de volume e preço, a diretoria enxerga esse aumento no momento de aprovar e decide com ele na mesa.

Como tratar a reforma tributária no orçamento de 2027?

Pelo cronograma da Lei Complementar 214/2025, em 2027 o PIS e a Cofins dão lugar à CBS, e o IBS começa em 0,1%. Para empresas do regime regular, a CBS destacada pelo fornecedor volta como crédito, então o orçamento deve ser feito pelo valor sem tributo recuperável, e não pelo valor bruto da nota. No início de novembro de 2026, a alíquota de referência da CBS para 2027 ainda dependia de resolução do Senado, por isso ela entra como premissa, com cenários. O que mais muda o custo líquido é a parcela comprada de fornecedores do Simples Nacional, que transferem menos crédito. Os detalhes estão em o que muda em compras com a CBS em 2027, e para testar alíquotas vale montar um simulador de CBS e IBS no Power BI. Os enquadramentos fiscais devem ser validados com o contador.

Como acompanhar o orçamento durante o ano?

O orçamento só ajuda a decidir se for comparado com o realizado todo mês, no mesmo nível de detalhe em que foi montado. Um painel de acompanhamento precisa de quatro visões:

  • Realizado x orçado por categoria e mês: com a distribuição mensal, e não só o acumulado do ano, para o desvio aparecer cedo.
  • Efeito volume e efeito preço: o efeito preço é a diferença entre o preço pago e o orçado, multiplicada pela quantidade comprada. O efeito volume é a diferença entre a quantidade comprada e a orçada, multiplicada pelo preço orçado. A conversa sai do "gastamos mais" e passa a separar "compramos mais" de "pagamos mais caro".
  • Comprometido: pedidos emitidos e ainda não faturados, que já consomem o orçamento antes de virar nota.
  • Projeção trimestral: a cada trimestre, a estimativa do ano é refeita com o realizado e as premissas atualizadas, sem alterar o orçamento aprovado, que continua sendo a referência.

Alguns atalhos enfraquecem o orçamento já na largada: montá-lo só dentro de compras, sem o plano de produção; esquecer os contratos com data de reajuste; e embutir a meta de economia no preço, o que impede saber depois se ela aconteceu.

Novembro e dezembro são os meses em que o orçamento de 2027 é decidido, e ainda dá tempo de trocar o percentual sobre o ano anterior por premissas que se sustentam. Se quiser apoio para montar o orçamento de compras 2027, a Insight Pro trabalha nisso dentro do serviço de Supply Chain Analytics. O ponto de partida é o diagnóstico gratuito: analisamos o seu gasto realizado por categoria, apontamos onde está o maior risco de estouro e mostramos como fica a projeção por volume e preço com os dados do seu ERP, já com o painel de acompanhamento desenhado para o ano.